terça-feira, 10 de junho de 2014

A MINHA MULHER TEM UMA AMANTE


Uma frase: “Queria tanto meter a minha língua na tua boca...”, foi vista num histórico de mensagens no computador... A frase apanhou de surpresa o marido, um técnico informático de 26 anos. 


Ele ia oferecer o computador ao sogro, mas antes de apagar o conteúdo de ficheiros abriu um ao acaso, não fosse conter informação importante. Foi então que no arquivo do Messenger descobriu um diálogo extenso e picante entre uma mulher e a Maria, sua mulher, com quem estava casado há 2 anos. Depois de ler, decidiu copiar todos os ficheiros e documentos para um disco externo, para os ler mais tarde. Sentia-se atordoado com o que tinha acabado de ler. Nesse exacto momento, Maria telefonou-lhe: “Onde é que andas? Já viste as horas?” - Pergunta ela.
Ele foi irónico: “Estou a formatar o disco do computador e como apanhei um certo histórico, isto vai demorar...”
Ela percebeu logo que a sua mentira que durava há mais de um ano tinha terminado.



Quando se encontraram nessa noite, Maria chorou imenso, assegurou-lhe que tinha sido um erro e prometeu-lhe que ia terminar a relação com a tal mulher. Um ano e meio antes, Maria, tinha 23 anos, morena e divertida, com um negócio na área da estética, tinha decidido deixar de trabalhar para ficar em casa com a filha recém-nascida. Criou um blogue onde foi partilhando experiências como a primeira papinha, as primeiras palavras da filha e o que ia sentindo. Um diário online que fazia parte de uma rede de blogues de outras mulheres na mesma situação. Nesse ano, no Natal foi a um jantar onde todas as mães se conheceram – e aí trocou olhares com a tal mulher, outra mãe, de 25 anos, casada e com dois filhos.

Dias depois, Maria recebeu uma chamada dela. “Devia ter bebido um pouco e declarou-se”, conta a empresária, que já suspeitava do seu interesse: mesmo antes do jantar, recebeu vários emails da outra mãe com elogios, como por exemplo: “És uma pessoa muito especial”.


Não era o primeiro relacionamento que tinha com uma mulher, Maria já tivera uma namorada, mas quando os pais da outra descobriram, forçaram a separação. Desde aí, ela só teve relações com homens.
As duas mães continuaram a falar ao telefone, a trocar SMS e um dia, decidiram ver-se novamente. O primeiro encontro sexual aconteceu em casa da outra mulher, em Benfica. O romance durou um ano.

Ao fim-de-semana, Maria levantava-se cedo, fingia que ia às compras e encontrava--se com a amante. Uma vez, viajou para Paris e ela foi lá ter. Aconteceu o mesmo em Londres. 

O marido sabia da existência do Blogue e sabia das novas amizades que a Maria fazia à custa do Blogue, achava perfeitamente normal. Um dia a Maria perguntou-lhe se ela podia convidar a amiga e o marido dela para se juntarem a eles em casa dos pais, no Alentejo. Ele concordou, e até achou interessante conviver com novas amizades.
Agora que ele descobriu que a Maria tinha a tal mulher como amante, ficou a saber de muita coisa através do histórico encontrado no computador. Elas tinham feito sexo no Alentejo enquanto ele e o marido dela saíram para ir às compras para um churrasco! 


Quando soube de tudo, ele ficou de rastos – diz que não foi pela traição física, mas por descobrir que a mulher levava uma vida dupla. “Como ela se envolveu com outra mulher, não senti aquele ódio sexual que sentiria se fosse com um homem. Mas fui enganado.”

Os terapeutas concordam que é mais fácil para um homem perdoar uma traição se ela envolver outra mulher. “Com um homem é uma competição directa. É outro macho a competir pela mesma fêmea. Se for com uma mulher, o indivíduo deixa de ter recursos para lidar com isso”. 
Quando traídos por uma mulher, eles tendem a achar que dali não vem mossa. Mas isso não é verdade, porque o mais natural é perderem-na. Quando as pessoas se envolvem com outras pessoas, homens ou mulheres, é porque as bases do casamento estão fracas, diz uma especialista.


Num estudo divulgado este ano pela Universidade do Texas, metade dos 718 homens inquiridos afirmou perdoar mais facilmente a infidelidade da parceira, desde que o acto sexual envolvesse outra mulher. Apenas 22% admitiram aceitar o adultério se fosse cometido com um homem.

Os resultados invertem-se no caso das mulheres: só 21% perdoariam ao marido uma traição com outro homem, enquanto 28% aceitariam salvar a relação se o affair envolvesse outra mulher.

O marido aceitou Maria de volta, mas a confiança estava comprometida. Sobretudo quando percebeu que a traição tinha acontecido mesmo com ele presente. Mais tarde, no festival do Sudoeste, ficaram num hotel. Eram quatro pessoas: ele e um amigo, Maria e a amante. Com uma cama de casal e duas individuais, elas decidiram logo que iam partilhar a primeira. “Como somos raparigas, fazia todo o sentido dormirmos juntas”, conta ela.
Durante os concertos, trocavam beijos rápidos e carícias enquanto os homens procuravam as bancas de cerveja. No hotel, riam--se, pareciam descontroladas. “Pensei que a outra fosse maluquinha. Inventou que estava doente ou com medo, para dormirem juntas. Parecia estar a ter um ataque.” Não era um ataque, estavam a ter relações sexuais e tentavam abafar os sons com os risos.


Maria e o marido conheceram-se quando estavam no mesmo grupo da pós-graduação em Publicidade. Casaram um ano depois, numa quinta com muitos convidados.
Nos primeiros tempos, a vida social era animada: iam jantar a restaurantes, dançavam no Lux e corriam o roteiro dos festivais de música, em Portugal e Espanha. “Ela gostava sobretudo de bandas rock de mulheres, como os Lush.”

Depois de desfeita a mentira, a amante não desapareceu. E quando Maria acabou tudo, passou a enviar emails ao marido dela. Um dia almoçaram juntos numa das cervejarias Portugália, em Lisboa. Ele diz que só aceitou encontrar-se com a amante da mulher porque “queria saber pormenores”. “Apercebi-me de que elas tinham uma relação obsessiva”, diz.

O afastamento do casal era inevitável: “Eu não estava preparada para me separar. Continuámos a fazer a mesma vida, mas já não havia tanto envolvimento físico”, diz Maria.

“Comecei a sentir repulsa dela, mas a Maria tentava aproximar-se, para me prender ao casamento”, conta o marido.
Das poucas vezes depois disso em que tiveram sexo, nasceu outro filho, um rapaz. “Os médicos recomendaram que um de nós dormisse com o bebé e o outro com a mais velha, que estava com problemas em adormecer. Nunca mais fomos íntimos.” A meio de 2010 divorciaram-se. Venderam a casa no Algarve, ela ficou no apartamento do casal, em Carnide, e ele mudou-se para o centro de Lisboa.


Maria reconhece agora que, naquele período de carência, com uma bebé, o género não era importante: tanto se poderia ter envolvido com um homem como com uma mulher, desde que lhe dessem atenção. A sexóloga Marta Crawford diz que há “uma nova vaga ou pelo menos maior visibilidade” de mulheres casadas a terem experiências amorosas ou sexuais com outras mulheres. “Identificam-se mais com a personalidade, com a pessoa.

Isso acontece em situações de maior carência ou vulnerabilidade”, diz a especialista. Apesar desta abertura, continuam a chegar ao seu consultório mulheres que manifestam uma paixão por outra, mas que não avançam por questões de educação. “Aí recorrem à masturbação com base na fantasia.”

A atracção por uma pessoa, independentemente do seu género, pode acontecer em qualquer altura na vida, dependendo das circunstâncias. Estas são conclusões de Lisa Diamond, psicóloga especializada em estudos do género e professora na Universidade de Utah, nos EUA. A também autora do livro Sexual Fluidity: Understanding Women’s Love and Desire (A fluidez sexual: entender o amor e o desejo nas mulheres) seguiu durante 10 anos um grupo de mulheres que mudava de comportamento sexual e recusava rótulos como lésbica ou bissexual. Estavam mais interessadas nas características da personalidade do que no corpo da pessoa.

“Toda a gente fala nisso, quis ver como era.” Foi assim que uma arquitecta na casa dos 30 anos justificou ao marido porque o tinha traído com uma mulher. Ele, economista, só queria salvar o casamento e sugeriu que tentassem um caso a três. Acabaram no consultório da terapeuta.


Ela garantia que era heterossexual e só tinha cometido um deslize ao envolver-se com uma mulher que conhecera numa discoteca nas Docas, em Lisboa. Antes, apresentou-lha como uma amiga. Iam os três jantar fora a bons restaurantes de Lisboa e ao cinema.
A arquitecta foi criada numa família rígida e católica. Mas a terapeuta que a acompanhou diz que ela “queria chocar”. “Chegou a ter relações sexuais com a amante em casa do casal.” Nas consultas, desafiava a paciência do marido, comparando-o constantemente à amante. “Pelo menos, ela arruma, tu deixas tudo espalhado pela casa.” As duas mulheres mantinham relações por telefone e trocavam mensagens picantes. Ao longo da terapia, ele acabou por recuar na ideia de manter um caso com as duas. “Não te quero partilhar”, disse. Continuam juntos.

Entrevistada, uma técnica de telecomunicações de 40 anos que prefere não revelar a identidade e vive na zona oriental de Lisboa, também reconhece que é confortável manter o casamento. Mesmo que assuma ter tido, nos últimos seis anos, encontros sexuais com várias mulheres. Não se alonga em detalhes, porque o marido, empresário, não sabe de nada. É ciumento e ela não se atreveria a contar-lhe.

Eram os melhores amigos quando casaram, numa cerimónia simples, há 12 anos. Em 2005, ela registou-se num site de encontros para mulheres, o Gaydargirls. Com ele faz a vida normal de um casal:“Vamos para as Caraíbas, para Ibiza. Jantamos fora e vamos ao teatro.” Com elas tem essencialmente encontros sexuais, sobretudo em hotéis ou em casas. Inventa uma desculpa no emprego e sai ou faz noitadas com “as amigas”. “Nunca fui apanhada, sei fazer as coisas. Um dia posso encontrar uma mulher obsessiva que me faça uma espera à porta de casa, mas não sofro por antecipação.”


O marido já conheceu algumas dessas amantes, mas não imagina o que se passa. Ela tem cuidado: só apresenta as mulheres que têm potencial para parecerem suas amigas. “Só as levo para o nosso núcleo quando são cultas. Se assim for, até podem ir jantar lá a casa.”

Outro dos casos contactados, e que também prefere manter o anonimato, é o de uma enfermeira num hospital distrital do centro do País. Quando o marido soube que ela estava a ter um caso com outra mulher, tornou-se violento. Forçou-a a ter relações sexuais e fez-lhe um interrogatório: “O que é que fazem as duas? Quantos vibradores é que usam?” A raiva era tal que ficou com medo que o marido lhe retirasse as duas filhas.

Ele descobriu o caso após uma viagem a Tenerife. Ela andava distante e ele pensou que a reconquistaria nas férias. Mas a enfermeira só pensava na amante, que conhecera semanas antes no hospital. Começaram a encontrar-se em cafés, até que uma noite a outra (com quem vive hoje) reservou um quarto de hotel. “Disse ao meu marido que faria o turno da noite. Ela disse-me que chegava ao hotel às 22h. Às 22h45 liguei-lhe a dizer que não conseguia ir porque não parava de tremer. Nunca tinha estado com uma mulher.”

Acabou por ir. A partir desse encontro, em que tiveram sexo, nunca mais tocou no marido. Semanas depois, quando o casal regressou das férias, abriu o jogo. Os seus pais souberam e a reacção foi péssima. “Preferia que dormisses todos os dias com um homem diferente do que com uma mulher!”, disse-lhe a mãe, que deixou de lhe falar. Logo no início, tentou comprar a amante da filha, perguntou-lhe quanto queria para a deixar em paz. A outra recusou. O pai também se afastou. Mas para ela era uma relação séria. Duas semanas depois de contar ao marido, tinha o divórcio concluído.


A vendedora imobiliária, de 38 anos, feminina e de aspecto cuidado, não conseguia olhar o marido nos olhos quando estavam a jantar à mesa. Carregava quilos de culpa. Ele, construtor civil na empresa do pai, dava-lhe uma óptima vida. Tão boa que ela nem precisava de trabalhar e dedicava-se a pequenos negócios, de que se fartava rapidamente. Depois de ter desistido do salão de estética, foi para uma imobiliária, onde despertou a atenção de uma colega.
A vendedora queixava-se de que nada se passava na sua vida.

Mesmo com dinheiro, ela e o marido limitavam-se a viajar para o Algarve, onde os sogros tinham casa. Não era acarinhada e a sua vida sexual resumia-se a relações agendadas: sexo uma vez durante a semana e outra vez ao sábado.

Em Setembro de 2009, pouco depois de conhecer a colega, de 48 anos, estava nos braços dela. “Com aquela mulher, encontrou uma forma de se sentir amada. E não se sentia pressionada no sexo”, conta a terapeuta que a recebeu. Quando lá chegou, já ia num ano de relação extraconjugal, mas os encontros sexuais eram esporádicos e aconteciam sempre na casa da outra, na linha de Cascais.

Sentia-se constrangida por estar a trair o marido e confusa em relação à sua orientação sexual. Nunca tinha sentido atracção por mulheres. O marido não sabia de nada – e não descobriu até hoje.


A terapeuta não a incentivou a contar a verdade: “Há verdades que não devem ser contadas, sobretudo quando só servem para nos aliviar a nós.”


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